O CRIME DO CAVERNÍCOLA HESÍODO:
O poeta, por exemplo, apenas
psicografava passiva e inconscientemente os
versos. Quem os criava ativa e conscientemente
eram as musas olimpianas. Isso era mais do que
filosofia; eram normas legais de procedimento.
Hesíodo foi julgado porque infringiu esse
dispositivo legal: escreveu uma poesia e assinou
o próprio nome, o que era vedado para
cavernícolas, sendo permitido apenas a
aristocratas.
Um movimento
filosófico-político iniciado por Hesíodo no
Século VII-AC e expandido por filósofos gregos
tentou gradualmente incluir uma parte maior da
população entre os humanos que tinham o
privilégio político de ter consciência. Entre os
deuses a consciência estava democratizada: no
Olimpo todos tinham o direito adquirido de ter
consciência.
O CRIME DE SÓCRATES: CAVERNÍCOLAS
TAMBÉM SÃO DOTADOS DE CONSCIÊNCIA:
esse movimento democratizando o direito de ter
consciência, fortaleceu-se na insurreição
milesiana e atingiu o ápice com Sócrates, que
com uma técnica conhecida como maiêutica pregava
que qualquer pessoa podia conhecer a si própria,
podia ter consciência, até mesmo escravos.
Isso abalava a estrutura dos
poderes constituídos, os quais encetaram uma
grande campanha contra os filósofos: o ensino da
maiêutica foi proibido por lei; vários filósofos
foram condenados à morte ou deportados; livros
pregando a democratização da consciência foram
confiscados e queimados. Os poderes constituídos
queriam deixar claro que ter consciência era um
privilégio dos aristocratas que governavam e ter
inconsciência era um dever dos cavernícolas.
Sócrates foi um dos mártires do movimento
abolicionista da escravatura da mente das
crendices do inconsciente.
Platão, apesar de amigo de
Sócrates, ausentou-se de Atenas depois desses
fatos conhecidos como escândalo filosófico,
esperando a poeira baixar. Pertencente à
tradicional estirpe aristocrática e com vocação
política lançou estrategicamente a sua
metafísica, um acordo de paz entre a filosofia e
os poderes dominantes.
METAFÍSICA, O RECUO ENTREGUISTA
DE PLATÃO:
Isso constituiu um grande recuo:
enquanto a maiêutica socrática pregava que a
consciência e o conhecimento estão dentro de
qualquer pessoa, a metafísica substituiu a
maiêutica pelo método do geômetra: o
conhecimento volta para o olimpo e a consciência
retorna aos olimpianos e aristocratas, incluindo
aqui os filósofos que deveriam governar o mundo.
Tentou inclusive implantar em Siracusa a
República Platônica, onde só a aristocracia
dotada de consciência (filósofos) tinha acesso
ao poder.
ficou restabelecido que ter
consciência é privilégio aristocrata e ser
inconsciente é dever do povão, conceitos
filocráticos que pertencem ao campo da
sociologia, criados por instâncias de poder como
nos ensinará muito depois Foucault: são
conceitos criados pelo poder a seu serviço.
O
político Platão com fama de filósofo, cujo
objetivo sempre foi implantar a sua República,
no acordo de paz que celebrou com os governantes
helênicos depois do "escândalo filosófico",
propôs um recuo à época pré-milesiana,
substituindo a revolucionária maiêutica
socrática, pela metrétrica e pelo geômetra.
Dessa maneira o povão cavernícola ficaria
condenado à palavra e à doxa e a aristocracia
continuaria com o refil do eidos. Séculos
depois, Lacan copiaria esse modelo político
de manipulação das massas relançando-o em alto
estilo com os nomes de significante e
significado, condenando a humanidade à mais
algumas dezenas de anos de escuridão e
manipulação da sua maior riqueza: o seu sistema
mente-cérebro.
Durante um milênio essa
crença permaneceu intocada, até que Agostinho
tenta democratizar o direito à consciência,
defendendo que não só aristocratas, mas todos os
humanos, até mesmo ateus, negros e mulheres, tem
consciência, tese que lhe valeu antipatia
generalizada.
TER CONSCIÊNCIA É DIREITO
UNIVERSAL:
O direito à consciência é uma
luta política, nascida num contexto político,
mantida num contexto político e seu vazamento
para a área psicológica é um acidente de
percurso tolerado por nossa cegueira perceptiva:
o Artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos
do Homem assegura: todos os homens são
dotados de razão e consciência. No último
quartel do Século XX surgem vários movimentos
pleiteando a abolição de estigmas sustentados
pelas teorias do inconsciente.
Do Século XV à metade do
Século XX registramos o apogeu do inconsciente
contrabandeado da Sociologia para a Psicologia,
mas usado incessantemente a serviço sociológico
do poder. A partir da metade do Século XX surge
o apogeu da consciência. A guinada evoluiu do
tudo é inconsciente (Carus) para tudo tem
consciência (holotropismo).
Ambos monismos tiveram sua
utilidade quando surgiram. O contexto que
justificou seu nascimento não mais existe. Hoje
são termos que desviam nossa atenção da essência
dos fenômenos, constituindo fonte permanente de
confusão, que ao invés de tudo explicar deixam
tudo sem explicação. O éter também tudo
explicava em Física; quando abolido deu lugar a
pesquisas que desaguaram na descoberta de
centenas de partículas subatômicas. Da mesma
forma em Noergologia não se usa nem consciente,
nem inconsciente – este por ser utopia, aquele
por ser pleonasmo. Isso aguçará nossa mente
obrigando-nos a enxergar os autênticos fenômenos
e atividades mentais até agora escondidos por
detrás desses dois monismos.
NOERGOLOGIA:
Essa
desintoxicação semântica e conceitual já vem
sendo desenvolvida por muitos estudos. O que a
Noergologia traz de novo é a abolição da
paralisia paradigmática, a focalização do homem
como um ser ativo e intencional, a mudança das
nossas crenças básicas sobre o mecanismo da
mente e a dessacralização da energia mental com
o conceito noergia, cujo efeito já imediato é
eliminar três empecilhos ao progresso da
Psicologia: o invasismo, o reducionismo e a
dicotomia.
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