

Gastão Pereira da Silva,
ao tematizar a imaginação, cometeu todos os pecados capitais dos
passivistas, ensejando que a humanidade continue perseguindo a imaginação ao
invés de usufruir do seu formidável potencial criador. O próprio título do
livro de Gastão fala por si só: os vícios da imaginação. Ele confirma mais
uma vez o preceito milenar reencarnado na doutrina psicanalítica de que:"aquilo
que não podemos realizar na vida real compensamos na vida psíquica".[1]
O que mais preocupa
é que já nos portais do terceiro milênio, em recentíssimo artigo no Jornal
Brasileiro de Psiquiatria de maio de 1998,
Elie Cheniaux
continua reencarnando e repetindo acriticamente os axiomas do arcaico
paradigma mecanopassivista. Mais grave é que provavelmente tenha pago por
esses falsos saberes, detalhe que aumenta a sua coragem para apresentar-se
publicamente como alguém que entenderia o mecanismo da mente. Enquanto toda
a orquestra multidisciplinar executa a sinfonia do cérebro como órgão do
psiquismo com energia neural,e a polissonografia já anunciou com seus
clarins que o território do sono é inteiramente distante do mapa
psicanalítico, é preciso muita coragem para ignorar tudo isso e continuar
falando da libido invasora. Eis as palavras da sua pena:
"as manifestações
culturais também são realizações disfarçadas de desejos... o devaneio
permite algum grau de satisfação dos instintos... a arte deve constituir uma
fuga temporária para a fantasia...manifestações culturais nos falam
basicamente de desejos e conflitos infantis: incesto, parricídio...a
verdadeira satisfação ao se apreciar uma obra artística provém de uma
descarga da energia psíquica, da sua capacidade de despertar e gratificar
desejos edipianos inconscientes".
A
imaginação desfila nessa citação vestida com a mais original, legítima e
inalterada roupagem de dinossauro, passivismo da mais antiquada e pura cepa,
manchada com o sangue menstrual do útero hipocrático ejetável, reabastecido
na bruxaria que atravessou incólume vários séculos, reproduzindo-se como
energia invasora camuflada na descrição citada. Ela é um shoping center de
conceitos fabricados sob medida para escravos mentais.
A citação inteira raciocina
dentro do filtro axiomático de que a energia tenha invadido, tenha capturado
o psiquismo e aprisionado a imaginação. Ora, Freud poderia ter dito esta
frase milhares de vezes que estaria sintonizado na cultura da sua época,
enquanto o seu discípulo está rigorosamente desafinado e deslocado do seu
momento histórico.
Como conseqüência exclusiva
de ter sido vítima da invasão
é que a imaginação agora sofre os seus efeitos e dança conforme a música. Ao
invés de comandar, ela é comandada. Por isso Cheniaux sugeriu que,
assistindo ao filme atroz e violento, o ator mataria por todos, e com isso
diminuiria a quantidade contábil de libido represada, o que evitaria a
violência de fato. Afirma também que as cenas eróticas na tela diminuiriam o
eros libidinal, levando o sexo virtual e imaginário a provocar uma
diminuição do sexo real, na mais espantosa contra-mão do cotidiano
moteleiro.
O único alívio é saber que
com a noergologia está introduzida a psiatrogenia, campo em que tais
venenosos conselhos não ficariam impunes se fornecidos a qualquer paciente.

 
Descendo do monte Olimpo para
a terra dos mortais comuns, poderão tais conceitos ser explorados
comercialmente. O
articulista citado poderá ganhar muito dinheiro pondo em prática o que
prega. Bastar criar uma empresa de assessoria comercial a motéis e
mosteiros, transferindo os filmes eróticos dos motéis para os mosteiros.
Dentro da lógica de que a imaginação rebaixa a represa da libido, a medida
mataria dois coelhos com uma só cajadada:
a)os motéis deveriam
economizar os filmes eróticos, medida que segundo a psicanálise deveria
aumentar seu faturamento,pois ao evitar a descarga projetiva traria como
resultado tecnicamente previsível que os parceiros sexuais não teriam o seu
tesão diminuído pela imaginação com tais filmes. Em conseqüência ficariam
mais tempo transando e aumentariam o faturamento dos motéis que cobram por
hora.
b)os mesmos filmes eróticos seriam
transferidos para os mosteiros, onde cumpririam a função psicanalítica de
aumentar o número de vocações, ao apaziguar o tesão dos jovens monges, que
deveriam assistir a filmes eróticos ao invés de fazerem suas preces,
reduzindo, destarte, segundo o articulista passivista, projetivamente, sua
necessidade real de sexo genital. 
O padre Lemercier levou as
teorias psicanalíticas da repressão, deslocamento e projeção tão à sério quanto o nosso astro
psicanalítico e realizou uma experiência prática: expôs jovens monges a
cenas eróticas, técnica que segundo a douta e elevada e sublime Psicanálise
deveria reduzir o total de libido projetivamente, deixando o corpo com menos tesão. Só
que os fatos do território mostraram que os monges tinham seu
tesão aumentado e queriam mulheres de carne e osso após a masturbação
psíquica psicanalítica, como de resto qualquer de nós o faria. Tanto que,
depois de psicanalisados, de cada quatro monges, três abandonaram o
mosteiro.
Ora, é a mesma teoria que
incentiva a exposição a filmes de violência e brincar com armas como remédio
para a diminuição do comportamento violento. Afirmamos com toda a convicção que
uma das principais causas da violência é o patrocínio promovido pela
Psicanálise da propaganda a favor de armas de brinquedo e de filmes
violentos. A
projeção deve ser considerada por uma sociedade evoluída como campanha de
incentivo à violência e punida com as leis vigentes. A grande influência da
Psicanálise adormece e engana vastos setores da sociedade contribuindo para
a grande safra de filmes violentos e brinquedos baseados em armas. Ora, Ao
invés de diminuir a violência isso se constitui num treino ela: atividade
lúdica e degustação de filmes ocorrem em estado alfa. Cenas violentas ou
brinquedos com violência nesse estado criam idéias meganérgicas de
comportamento violento.
Até quando os psicanalistas podem
continuar gritando impunemente: o território que se dane, viva a psicanálise!
Será que não costumam freqüentar motéis e assistir a filmes eróticos antes
da união carnal, como forma de aquecimento e não de diminuição do tesão?
Já percebeu Paul Ricoeur que é suficiente inverter o pólo do poder, bastando dizer que a psicanálise
pare de analisar tudo e a todos, para que fatos corriqueiros — como os
filmes eróticos em mosteiros ao invés de em motéis — desmontem toda a base
psicanalítica, que, aliás, é feita sob medida apenas para cavernícolas
passivos e submissos, que ainda não se deram conta de que o seu fantástico
potencial mental tem sido explorado de forma abusiva pelo paradigma do
passivismo, máxime pelo seu ícone, o inconsciente metapsicológico.
      
Cheniaux
insiste em ignorar fatos de domínio comum
(o fogo queima, churrasco com sal dá sede, filme erótico dá tesão, filme
violento ensina violência) e despudoradamente repete, à revelia de todo o
incessante progresso à sua volta, o vetusto mote do tempo das trevas, do
tempo da bruxaria, de que a imaginação sofre passivamente os efeitos daquela
misteriosa energia invasora.
Já vimos que não conseguiremos
realizar na vida real nada que não tenhamos previamente moldado no
pensamento. Assistir a filmes de violência treina a violência, assistir a
filmes eróticos aumenta o tesão. A indução alfagênica, o aumento da potência
cerebral e a imaginação propiciada pelo filme facilitam a criação de
excelentes programas noérgicos. Todo o treinamento empresarial é realizado,
em grande parte, com filmes que treinam o aprendizado desejado, jamais
ensinando o oposto, paradoxo que estaria certo seguindo à risca a
psicanálise. Segundo ela, seria necessário, por exemplo, que, para sermos
treinados em aviação, devêssemos assistir a um filme sobre como cultivar
cogumelos.
Um pianista pode completar seu
treino executando imaginariamente a partitura, propiciando um refinamento do
modelo neuronal dessa partitura com subseqüente melhor desempenho objetivo.
Como o homem não é uma máquina, mas tem uma máquina, podemos pedagogicamente
dizer que a imaginação tem sobre a vontade a vantagem de usar a seriação
algorítmica dos passos, organizando programas nítidos, claros, detalhados e
eficazes. Por isso ela é a grande incubadora do nosso comportamento,
sentimentos e pensamentos.
A
imaginação é a grande aliada do homem, a fantástica usina de descobertas e
criações moldando e reprocessando as maquetes mentais, as fôrmas noérgicas e
neurais criadoras de idéias meganérgicas, que plasmarão nosso futuro
comportamento. A imaginação é a grande usina da nossa realidade.
|