Antônio R. Damásio
é brilhante neurologista,
Professor, Pesquisador cerebral e exímio escritor. Como é de
se esperar, estas atividades absorvem todo o seu tempo e
interesses, não lhe sobrando oportunidade de conhecer o novo
foco de enxergar o fenômeno humano pelo paradigma emergente.
Esta intrigante observação deve deixar claro que Damásio,
enquanto neurologista é extraordinário, mas quando percorre
o espaço que não lhe é próprio das interpretações
psicológicas dos fenômenos, o faz usando preferencialmente
conceitos e óculos do paradigma do passivismo psíquico.
Estimulante exercício
consiste em separar os
fenômenos que Damásio observa das teorias com que os
interpreta, para que não confundamos mapa com território.
Isto se torna particularmente interessante se considerarmos
que são
efeitos imediatos das revoluções de paradigma: a) enxergar e
desfrutar descobertas já feitas; b) descontaminá-las dos
inevitáveis efeitos camaleão, tapetão e coringa; c)
refocalizá-las à luz do paradigma emergente.
A leitura de Damásio
constitui para noergologistas fecunda fonte de treinamento e
extraordinária oportunidade de exercer vigilância
intelectual, gerando efetiva contribuição para o progresso
da ciência, seja realizando as assepsias semânticas e
conceituais, seja separando joio de trigo, descontaminando
fenômenos de velhas interpretações, trazendo-os para o novo
filtro axiomático, onde receberão nova visão, novos nomes e
novas dimensões.
É ainda muito
reduzido o número de
pessoas capacitadas para tal empreitada. Por isso cresce a
importância da missão dos pioneiros na realização desta
tarefa, que deve ser feita com vigilância, perseverança e
olhar de lince. É necessária elevada evolução para saber
reconhecer em Damásio seus méritos como pesquisador em
neurologia e ao mesmo tempo corrigir-lhe algumas distorções
passivistas das quais ele não conseguiu escapar, fato
recorrente na história da ciência.
Exemplo de tal recorrência é outro neurologista,
Jean Martin Charcot.
Algumas de suas descobertas e descrições nosológicas são
válidas até hoje. Ele também era extraordinário
neurologista, o que não o impediu de cair nas armadilhas
culturais então vigentes e descrever o hipnotismo como uma
seqüela sexual da histeria. Este gigantesco erro não lhe
tira nenhum dos seus méritos científicos, tanto quanto
nenhum dos seus méritos de neurologista o credenciam a
avalizar a miopia da histerogênese hipnótica.
O mesmo ocorre com Damásio.
Ele tem muitos méritos neurológicos, alguns dos quais se
descredenciam quando contaminados com interpretações do
paradigma passivista. Damásio perde várias oportunidades de
descrever funções noérgicas específicas acomodando-se em
pansofismas do tipo consciente-inconsciente. Em conseqüência
dessa falta de rigor científico e semântico às vezes não
consegue escapar de clássicas confusões entre inato e
adquirido ou dissidência e anormalidade.
MENTE ENCARNADA E NÃO SÓ CEREBRALIZADA:
Por outro lado, enquanto
Damásio fala como neurologista, forma sintonia e sinergismo
profundo com Noergologia, especificamente no ponto em que
deixa claro que mente-cérebro é um sistema e que o erro de
Descartes foi admitir o pensamento separado do corpo.
Nas páginas do seu livro abaixo citadas
podemos acompanhar
o desenvolvimento desses conceitos afinadíssimos com
Noergologia: a) (pg. 157)- nível mais evoluído controle o
menos evoluído; b) (pg. 159) processamento ativo de
estímulos; c) (pg. 160) descrição da parte automática da
megane inata; d) (pg.146) mente incorporada e não apenas
cerebralizada; e) (pg. 278) crianças expostas a filmes
violentos ficam dessensibilizadas a ele; f) (pg. 279) o erro
de Descartes foi admitir o pensamento separado do corpo.
A tese central do livro
é a condenação da
dicotomia e o estabelecimento solene do cérebro como órgão
do pensamento. Apesar de que em alguns momentos Damásio
condena o reducionismo, aqui ele pratica o que condena. Ou
trata-se de simples recurso pedagógico ou Damásio não está
muito convicto de que o reducionismo é o pecado mortal
oposto ao erro de Descartes. Se Damásio tivesse sido
treinado em Noergologia tal não aconteceria: a) (pg. 259):
os acontecimentos mentais são o resultado da atividade nos
neurônios do cérebro; b) (pg. 279) visto o pensamento ser na
verdade causado por estruturas e operações cerebrais.
Damásio e Noergologia concordam
plenamente que cérebro é órgão do pensamento encarnado. Mas
não fica claro em Damásio que cérebro, além de órgão, é
também instrumento do pensamento, sem que isso constitua
dicotomia, invasismo ou reducionismo, tarefa viável e
científica com os conceitos de noergia, transdução,
infocinética e percepção.
Há sintonia absoluta
entre Noergologia e Damásio quanto ao uso cauteloso dos
termos software e hardware, os quais não podem ser
utilizados reducionisticamente como fragmentos separados do
todo (pg. 278). Em Noergologia utilizamos os termos como
recurso pedagógico para mostrar as duas faces da única e
mesma moeda sistêmica.
Outro aspecto central axiomático da Noergologia
é o da atividade mental, em que intencionalidade e meganes
criadas existencialmente conferem sentido e hierarquizam a
importância e o uso das megaínas, as memórias meganérgicas
inatas, conceito que agora está comprovado empiricamente com
os homens bomba, cujas meganes processaram até a megaína de
sobrevivência vital como menos importante do que seus ideais
revolucionários. Em Damásio isto está implícito mas não bem
explicitado, embora ele afirme em dado momento que (pg.143)
podemos influenciar comportamentos inatos.
Todavia ele não chega a perceber que é sempre assim que
agimos, mesmo quando superficialmente pensamos que tal não
ocorre. É sempre a megaína que está a serviço da Megane e
não o oposto. Às vezes ele se esquece de tudo e fala:
(pg.144) No caso dos
instintos o sinal partiu do corpo significando um controle
do corpo pelo corpo embora sentido e gerido pelo cérebro.
Aqui Damásio dá um escorregão dicotômico,
que pode facilmente ser evitado levando a sério que a
informação corporal é processada noergicamente. Noergologia
facilita esta tarefa, diminuindo sensivelmente as
possibilidades desse tipo de erro com os conceitos de
transdução e infocinética. Nunca é demais repetir que é
sempre o nível mais evoluído que controla o precedente em
toda a escala evolutiva. Noergologia não vê no “sinal que
partiu do corpo” um estímulo,mas apenas uma informação que
após transduzida será processada ativa e criativamente por
cada pessoa.
Quando Damásio fala de emoção,
nos passa a impressão de que ele se esquece momentaneamente
de tudo o que diz no restante da sua obra, ou seja, que
pensamento e cérebro constituem um sistema. Por vezes
Damásio aceita implicitamente uma dicotomia entre funções
mentais e sentimentais ou emotivas, cometendo o mesmo erro
que tanto condena em Descartes: fragmentar pedaços do
pensamento dividi-los e separá-los.
O que mais espanta no paladino antidicotômico
é perceber que às vezes ele faz de conta que algumas das
funções sistêmicas do pensamento não fazem parte desse
sistema, como por exemplo, as emoções. Aqui Damásio está
pagando pelo pecado original de conhecer muitos conceitos do
PPP* e desconhecer os conceitos evolucionários da
Noergologia.Veja por exemplo esta sua afirmativa (pg. 77) é
bem sabido que sob certas circunstancias a emoção perturba o
raciocínio.
Megaína
processada com Megane
proporciona ao homem a
incrível vantagem de memórias altamente eficazes para
acionarem aqueles comportamentos significativos para a
história cultural de cada um de nós. Sob nenhuma hipótese
podemos aceitar que emoção perturba o raciocínio. O que
interfere no raciocínio e no desempenho é a expectativa ou o
que Frankl chamava de intenção paradoxal, onde emoção é um
dos componentes sistêmicos do pensamento processada ativamente.
Nesse caso é a imaginação da emoção que cria a expectativa e
não o oposto.
Damásio não conseguiu evitar
grande dose de contaminação passivista. Tanto que para ele o
sentimento é uma espécie de desvantagem: (pg. 77) sentimento
é um parceiro do nosso pensamento imposto pela natureza.
Emoção prazerosa é procurada e a dolorosa é apenas
suportada.
Noergologia vê sentimentos e emoções
como vantagens das megaínas, idéias meganérgicas inatas que
facilitam e automatizam comportamentos altamente
significativos e importantes. Ora, centros de prazer e dor
ambos estão no cérebro. O homem não é um ser em busca de
prazer, mas em busca de sentido, é um ser intencional. A dor
lhe permite transformar veneno em remédio e aprender
extraordinárias lições de vida, construindo meganes
altamente vantajosas. Dor não é algo que tenhamos que
suportar, é algo que temos que aprender a processar de forma
construtiva.
Como fruto de contaminação passivista,
Damásio cede à tentação, apesar de ser neurologista e não
psicólogo, nem político, nem psiquiatra, de confundir
dissidente com doente e com irracional: (pg. 77) se um
medicamento tem 90% de chance de cura e apenas 10% de
possibilidade de insucesso, Damásio diz que seria irracional
rejeitar o remédio pelos 10% de chance de morrer.
São exemplos eloqüentes
mostrando a imperiosa necessidade da adoção da noergologia,
sob cujos auspícios jamais alguém como Damásio conseguiria
confundir dissidente com irracional. Todavia o mais grave
dos seus erros é acomodar-se e usar termos generalistas de
consciência-inconsciência ao invés da respectiva função
noérgica que impreterivelmente tais semantemas ocultam. Nos
exemplos abaixo, qualquer noergologista que tenha tido
sucesso nos exercícios de desintoxicação semântica
certamente escapará dos erros que Damásio comete várias
vezes:
a) (pg. 156)
os dados sobre a regulação biológica
mostram que as seleções de respostas das quais o
organismo não tem consciência e por conseguinte não são
deliberadas, ocorrem constantemente nas estruturas cerebrais
de evolução mais antiga. O termo correto é respostas
involuntárias ou automáticas. O efeito dessa desintoxicação
semântica é levar-nos a pesquisar megaína, Vontade,
Imaginação, Percepção etc. ao invés de esconder nossa
preguiça naquela rede de dormir chamada inconsciente ou
consciente.
b) (pg. 161)
a consciência permite uma estratégia de proteção
ampliada no caso do medo. O termo correto é: o processamento
noérgico permite uma estratégia de proteção ampliada no caso
do medo. O exemplo do treinador enfiando a cabeça dentro da
boca do leão apóia a redação corrigida e mostra que é
imprópria à redação usada por Damásio. No exemplo abaixo
vemos mais repetições desse erro. Treine você mesmo,
substituindo os semantemas consciente-inconsciente pelo nome
correto da função noérgica genuína.
c) (pg.165)
em nível não consciente,
redes no córtex prefrontal reagem automática e
involuntariamente aos sinais resultantes do processamento
das imagens acima descritas.
d)
(pg. 166)
da mesma forma não
consciente, automática e involuntária, a resposta das
disposições prefrontais descrita no parágrafo anterior é
assinalada a amídala e ao cíngulo anterior.
Novamente comportamento automático é
confundido com inconsciente, o que só é possível sempre que
Damásio faz uma DICOTOMIA DO PRÓPRIO COMPORTAMENTO,
pressupondo, mesmo que não o deseje, que uma parte dele não
faça parte dele:
e)
(pg. 178)
linguagem corporal provoca sentimento: a linguagem corporal
é uma
informação que será
transduzida e processada ativamente podendo intencionalmente
resultar em sentimento ou indiferença;
f)
(pg. 191)
o cérebro é o público
cativo do corpo:
em Noergologia diremos
que o cérebro é o juiz cativo do corpo e não o público. Está
em jogo implícito aqui o embate ativo x passivo;
g) (pg. 276)
enquanto sentimentos
dependem da regulação biológica, a razão depende de sistemas
cerebrais específicos, alguns dos quais processam
sentimentos. assim pode existir um elo de ligação entre
razão e sentimento e entre esses e o corpo. É como se
estivéssemos possuídos por uma paixão pela razão, um impulso
que tem origem no cerne do cérebro, atravessa outros níveis
do sistema nervoso e finalmente emerge quer como sentimento
quer como predisposições não conscientes que orientam a
tomada de decisão.
De novo faz falta a Damásio o conceito de percepção
como processamento noérgico ativo transdutivo de
informações, com o que poderia afinar os seus conceitos
evitando separar sentimento de pensamento. E isso acontece a
despeito de o próprio Damásio ter observado que (pg. 277)
sem diminuir
o valor da orientação das emoções normais é natural
que se queira proteger a razão
da fraqueza que as emoções anormais ou a manipulação
das emoções normais podem provocar no processo de
planejamento e decisão.
O texto sugere a urgência da inclusão e melhor difusão
da Noergologia nos meios acadêmicos,
melhorando a percepção científica moderna não só de Damásio,
mas de vários neurocientistas, inclusive Kandell, cujos
inegáveis méritos não o vacinaram contra a contaminação do
paradigma do passivismo psíquico. Todos estamos
profundamente cientes de que descobertas não produzem
avanços científicos quando o paradigma ultrapassou a fase
paralisante. Pelo contrário, descobertas interpretadas pelo
velho paradigma paralisam o progresso ao invés de
impulsioná-lo. Só a revolução do próprio paradigma é capaz
de alavancar grandes avanços. Sem esta revolução até mesmo
personalidades como Damásio pecam ao afirmar que existem
emoções normais ou anormais. A tentativa de separar razão de
emoção, além da instancia puramente pedagógica onde isso
seria permitido, leva Damásio a confundir a individualidade,
que por essência é dissidente, ou melhor, ainda, única,
irrepetitível, com os conceitos passivistas de normal e
anormal.
Se o erro de Descartes foi
admitir o pensamento
separado do corpo, o erro de Damásio é afirmar (pg. 279) que
num dado momento da evolução surgiu uma consciência
elementar. Ora, não há como utilizar os termos consciência
ou inconsciência sem gerar distorções:
a) é impossível separar
estes semantemas do seu histórico onde alguns seres
aristocráticos e divinos podiam pensar por conta própria
(conscientemente) e outros não tinham tal direito
(inconsciente do cavernícola); b) sempre que usa tais termos
Damásio comete o mesmo erro de todos os passivistas: tenta
avaliar DE FORA um fenômeno que é exclusivamente noérgico,
isto é, intrapsíquico. Dentro dessa mesma linha de
pensamento Damásio diz que (pg. 80) o doente A possuía uma
percepção NORMAL. Continuando por esse caminho terminaremos
afirmando que o moribundo está inconsciente ao invés de
evoluir e perceber que moribundo e nós apresentamos apenas
percepções divergentes, como comprovam os egressos de morte
clínica.
EM ALGUNS ASPECTOS,
Damásio faz sintonia com Noergologia
quando afirma (pg.116): o fato de dado organismo possuir uma
mente significa que ele forma representações neurais que
podem se tornar imagens manipuláveis num processo chamado
pensamento, o qual acaba por influenciar o comportamento em
virtude do auxilio que confere em termos de previsão do
futuro de planejamento desse de acordo com essa previsão e
da escolha da próxima ação. Enxergamos aqui um substrato
sistêmico para a intencionalidade, confirmando aliás o que
na nossa própria Instituição o Dr. Chang está pesquisando e
comprovando o forward model, o modelo cerebral antecipatório
como inerente ao mecanismo do cérebro, até mesmo nas
minhocas.