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A
ESTRUTURA DAS REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS
Resenha do livro de Thomaz Khun (1962),
Compilado pelo Prof. Jacob Bettoni
Cientistas
muitas vezes
agem
como se estivessem mais interessados
em impedir o progresso científico do que em
promovê-lo -
(Thomaz Khun).
Não
conseguimos enxergar algo que esteja fora da moldura do mundo
do Paradigma.
Não podemos ignorar as implicações da Gestalt do Paradigma
sobre a organização sociológica da comunidade cientifica e
sobre a estrutura preceptiva dos seus participantes.
O cientista normal é, para Kuhn, um homem que
busca provar a si mesmo e aos colegas de profissão, ser um
perito na resolução de um quebra-cabeça, cujo desfecho o
paradigma já antecipou. A sua atividade consistiria em “alcançar
o antecipado de uma nova maneira”.
Como o Paradigma assegura antecipadamente
a solução dos quebra-cabeças, a ciência normal é um
empreendimento tranqüilo;
(Em
Noergologia sabemos que esta tranqüilidade permanece
existindo na fase estimulante de qualquer paradigma, fica
abalada na fase paralisante e finalmente desacreditada na
fase revolucionária de qualquer paradigma).
Fracassos do profissional se refletem sobre a
sua reputação nunca sobre o Paradigma.
Não é, porem, apenas a solução antecipada que caracterizam
os quebra-cabeças de que aqui falamos. O paradigma fornece
também os critérios para as soluções admissíveis:
a) os instrumentos que forem construídos para aferir o
Paradigma devem apresentar resultados precisamente
relacionados a ele; b) a dificuldade na solução de um
quebra-cabeça não implica na possibilidade de alteração do
Paradigma; seria criar um novo quebra-cabeça sem solucionar
o antigo; c) 3º o Paradigma “diz” o que existe no
mundo. Todo o esforço da ciência normal deve ser voltado
para provar que a crença em tais entidades está certa.
O conhecimento científico só cresce de modo cumulativo
dentro do ciclo de vida de um dado paradigma (FÉ):
revoluções produzem descontinuidade de comutatividade de
conhecimento, rompendo com os indicadores do verdadeiro e do
falso. Assim é que após uma revolução de paradigma surge uma
nova vida, um novo início de conhecimento que começa do zero
formando na seqüência uma nova comutatividade até a próxima
revolução.
Os problemas científicos transformam-se em puzzles, enigmas
com um número limitado de peças que o cientista - qual
jogador de xadrez - vai pacientemente movendo até encontrar
a solução final. Aliás, a solução final, tal como no enigma,
é conhecida antecipadamente, apenas se desconhecendo os
pormenores do seu conteúdo e do processo para a atingir.
FASE ESTIMULANTE
O novo paradigma irá redefinir os problemas e
as incongruências até então insolúveis, dando-lhes uma solução
convincente, e é neste sentido que ele se vai impondo junto da
comunidade científica. Essa substituição não ocorre de um modo
rápido; o período de crise, caracterizado pela transição de um
paradigma a outro, pode ser bastante longo. É compreensível
que assim seja, já que cada um dos paradigmas estabelece as
condições de cientificidade do conhecimento produzido no seu
âmbito, e essas condições podem ser consideradas ridículas,
triviais ou insuficientes, pelos defensores do velho
paradigma, ou seja, os cientistas claramente comprometidos e
educados à luz do paradigma anterior, que tudo fazem para
impedir a substituição.
Neste período, o diálogo entre os cientistas é
um diálogo de surdos, já que existe uma clara
incompatibilidade de paradigmas, utilizando a linguagem
kuhniana, os paradigmas são incomensuráveis. Estamos pois, na presença de duas
visões radicalmente diferentes do mundo, o que torna
impossível uma solução de compromisso, na tentativa de tornar
compatíveis os dois paradigmas. Este período de crise,
evidencia claramente, que o espírito crítico e a audácia na
procura da verdade, não são características do cientista. Ao
contrário daquilo que era afirmado por Karl Popper, o
cientista não passa a vida a pôr em causa aquilo que aprendeu,
pelo contrário, defende esse patrimônio de um modo insistente
e procura resistir a mudanças bruscas que acarretem uma
redefinição radical do trabalho até então realizado. A imagem
do cientista, é a de um sujeito profundamente conservador e
que a todo o custo procura resistir à mudança (princípio
kuhniana da tenacidade).
"Mais ou menos tempo será necessário para o novo paradigma
se impor, mas, uma vez imposto, ele passa a ser aceite sem
discussão e as gerações futuras de cientistas são treinadas
para aceitar que o novo paradigma resolveu definitivamente os
problemas fundamentais. Da fase da ciência revolucionária
passa-se de novo à fase da ciência normal e, portanto, ao
trabalho científico subparadigmático". Inicialmente o
paradigma emergente será aplicado em várias áreas, essa
aplicabilidade será assumida sem ainda se ter feito qualquer
tipo de prova nesse sentido. É para estas áreas que a ciência
normal se vai orientar.
A
profunda inovação kuhniana, que a escolha entre paradigmas
alternativos não se fundamenta em aspectos teóricos de
cientificidade, mas em fatores históricos, sociológicos e
psicológicos,
ou seja, numa certa subjetividade e até mesmo numa
irracionalidade, que acaba por ter um papel decisivo e fulcral
na imposição de determinadas teorias em detrimento de outras.
Essa imposição, não se deve ao mérito científico das teorias,
pelo contrário, devemos procurar as causas dessa imposição,
saindo do "círculo das condições teóricas e dos mecanismos
internos de validação e procurá-las num vasto alfobre de
fatores sociológicos e psicológicos. O processo de imposição
de um novo paradigma é um processo retórico, um processo de
persuasão em que participam diferentes audiências relevantes,
isto é, os diferentes grupos de cientistas. É necessário
estudar as relações dentro dos grupos e entre os grupos,
sobretudo as relações de autoridade (científica e outra) e de
dependência. É necessário também estudar a comunidade
científica em que se integram esses diferentes grupos, o
processo de formação profissional dos cientistas, o
treinamento, a socialização no seio da profissão, a
organização do trabalho científico, etc. Nisto consiste a base
sociológica da teoria de Kuhn".
FASE PARALISANTE E REVOLUCIONÁRIA
O cientista não está minimamente interessado
em provocar um abalo na estrutura do edifício que de certa
forma o "alberga" e dá sentido ao seu trabalho profissional.
O cientista é humano: a proteção, a confiança e a segurança
são condições que todo o ser humano deseja alcançar. Todas
estas condições são fornecidas ao cientista pelo paradigma. "O
que eles defendem nessa resistência é afinal o seu modo de
vida profissional".
O efeito cumulativo deste processo pode ser tal
que a certa altura se entre numa fase de crise. Incapaz de lhe
dar solução, o paradigma existente começa a revelar-se como a
fonte última dos problemas e das incongruências, e o universo
científico que lhe corresponde converte-se a pouco e pouco num
complexo sistema de erros onde nada pode ser pensado
corretamente. Já outro paradigma se desenha no horizonte
científico e o processo em que ele surge e se impõe constitui
a revolução científica e a ciência que se faz ao serviço deste
objetivo é a ciência revolucionária.
Khun traz para o debate, uma base sociológica
até então desvalorizada e esquecida, que poderá explicar por que se comportam os cientistas
muitas vezes como se estivessem mais interessados em impedir o
progresso científico do que em promovê-lo,
boicotando o nascimento de revoluções científicas e, a o mesmo
tempo, dando guarida a teorias desprovidas de cientificidade.
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